O mercado de sucata de perfis de alumínio está emitindo um sinal de alerta. Nesta semana, relatos comerciais acompanhados pelo autor indicaram preços chegando a R$ 20 por quilo, com dificuldade para encontrar material disponível nas condições procuradas.
Quem tem tarugo no pátio ganha tempo para negociar. Quem está sem estoque precisa correr atrás de abastecimento — e pode acabar comprando sob pressão.
A disputa pela sucata já começou. Mas, para entender o que está acontecendo, precisamos olhar além do preço.
Capacidade de refusão não significa matéria-prima garantida
Considerando a capacidade instalada informada para esta análise, de 67 mil toneladas por mês, o potencial anual de refusão corresponde a:
67.000 toneladas × 12 meses = 804.000 toneladas por ano.
Esse número representa capacidade instalada, e não produção efetiva ou consumo exclusivo de sucata de perfis. A operação depende da utilização dos equipamentos, da composição da carga metálica e, principalmente, da disponibilidade de matéria-prima adequada.
Construir capacidade de refusão é uma decisão de investimento. Garantir metal para alimentar essa capacidade é um desafio permanente.
De onde vem a sucata de perfis?
Duas fontes merecem atenção: a sucata de processo e a sucata proveniente de reformas e substituições.
A sucata de processo surge na fabricação e transformação dos perfis: pontas, recortes, peças rejeitadas e sobras de corte e usinagem. Quando segregada e identificada, oferece melhores condições de controle da matéria-prima.
Já a sucata de reformas vem da retirada de esquadrias, portas, fachadas e outros componentes. Sua disponibilidade depende da renovação dos imóveis, da coleta e da comercialização. Pode conter pintura, acessórios, vedações e materiais misturados, exigindo preparação e classificação.
Portanto, não basta haver alumínio disponível. É necessário encontrar material compatível com a liga e com a qualidade do tarugo que se pretende produzir.
A geração de sucata não acompanha automaticamente a expansão dos fornos
Esse é o ponto central.
Mais capacidade de refusão pode ampliar a disputa pelo material existente, mas não faz surgir, imediatamente, mais sucata no mercado.
Além disso, melhorar o aproveitamento industrial reduz perdas e a geração de sucata de processo por tonelada produzida. É positivo para a indústria, embora limite essa fonte de abastecimento.
Nas reformas, o retorno do metal segue outro ritmo. Os perfis permanecem em uso até que sejam substituídos. A necessidade de uma refusora não antecipa esse ciclo.
R$ 20 por quilo: um sinal que exige contexto
O preço relatado nesta semana merece atenção, mas não deve ser tratado como cotação nacional uniforme. Liga, limpeza, localização, volume, frete e condições de pagamento influenciam cada negociação.
Para quem compra, o preço por quilo também não conta toda a história. Contaminação, perdas de fusão e necessidade de correção química podem alterar o custo do metal aproveitável.
Comprar barato e perder rendimento pode custar mais do que pagar por uma sucata bem classificada.
Quem tem estoque ganha tempo; quem não tem fica exposto
O estoque de tarugos permite administrar melhor o momento da reposição. Entretanto, segurar material esperando novas altas também compromete capital de giro e envolve risco.
A resposta empresarial precisa combinar planejamento de compras, fornecedores recorrentes, controle de qualidade e estoque compatível com os pedidos.
Há espaço para coletores, beneficiadores e fornecedores capazes de entregar regularidade, classificação e rastreabilidade. Na disputa pela sucata, a capacidade de organizar o abastecimento pode se tornar tão importante quanto a capacidade de fundir.
A largada foi dada. Agora, o desafio é garantir matéria-prima sem perder margem, qualidade e segurança de fornecimento.
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Fontes e critérios: capacidade mensal fornecida pelo autor, anualizada para esta análise; preço e disponibilidade baseados em seus relatos comerciais da semana. Para contexto setorial, consulte o “panorama da indústria brasileira do alumínio — ABAL” (https://abal.org.br/cadeia-do-aluminio-mercado-do-aluminio/) e o “Anuário Estatístico 2024 — ABAL” (https://abal.org.br/wp-content/uploads/2026/05/anuario-estatistico-abal-2024.pdf). Os dados gerais de reciclagem dessas publicações abrangem diferentes tipos de sucata e não comprovam, isoladamente, a oferta de sucata de perfis.